Mayara Rosa Gonçalves
O uso de suplementos minerais orgânicos vem sendo destaque na nutrição animal no mundo inteiro, em função de diversos fatores, dos quais cabe ressaltar: absorção proxima a 100%, alta estabilidade, alta disponibilidade biológica, maior tolerância do organismo do animal (menor toxicidade), ausência de problemas de interação com outros macro e microminerias da dieta, ausência de problemas de interação com outros componentes da dieta, como gorduras e fibra, que podem formar ligações indesejáveis com os metais (BARUSELLI, 2005).
O selênio orgânico (levedura selenizada) é mais biodisponível que sua forma mineral (selenito ou selenato) para suplementação dietética, além de ser mais eficiente em promover maior nível de Se nos tecidos ou sistemas do organismo dos animais (BAULEZ & DUSSERT, 2011).
Segundo Baulez & Dussert (2011), pesquisadores consideram que, na maior parte do globo terrestre, a ingestão de selênio dietético, tanto para humanos, quanto para animais, está abaixo do nível para promover proteção antioxidante. Em função do Se entrar na cadeia alimentar somente por meio de consumo de plantas que convertam sua forma inorgânica ou mineral em Se orgânico e dos baixos níveis de Se que são encontrados na maioria dos solos da Terra (Oldfield, 2002), quantidades insuficientes deste mineral essencial são encontrados em forragens e cereais. Por isso, a maioria dos nutricionistas recomenda sua suplementação dietética. Duas formas de Se suplementar estão disponíveis:
– Forma mineral, como selenito ou selenato de sódio;
– Forma orgânica, como levedura enriquecida com selênio, que contém o Se ligado a aminoácidos (selenometionina, selenocisteína). Ao contrário da forma mineral, a forma orgânica é aquela encontrada em vegetais e é prontamente disponível para os animais.
A suplementação com levedura selenizada para ruminantes promove maior concentração de antioxidantes nos animais, melhores índices reprodutivos, maior transferência de Se para as crias e melhoria na saúde (decréscimos na contagem de células somáticas no leite e menores riscos de mastite) (BAULEZ & DUSSERT, 2011).
2. Selênio
O selênio é um micromineral essencial ligado a fertilidade e a prevenção de várias doenças (UNDERWOOD; SUTTLE, 1999 apud CORTINHAS, 2009). Este mineral é componente da enzima glutationa peroxidase que atua como antioxidante convertendo peróxido de hidrogênio a água. Além de fazer parte da iodotironina 5 deiodinase, enzima que converte T4 em T3 (NRC, 2001). Assim, o Se está envolvido com três funções básicas no organismo qu são: defesa antioxidante, metbolismo do hormônio da tireóide e controle das reações celulares (McDOWELL, 2003 apud CORTINHAS, 2009).
Grande parte do Se no organismo está presente na forma de selenocisteina (SeCis), cujas funções são ativar as selenoproteínas, ou como selenometionina (SeMet), incorporadas em proteínas que formam uma reserva biológica de Se. Antes de ser transformado em SeCis, o Se (orgânico ou inorgânico) deve ser submetido a transformações metabólicas convertendo-se a seleneto (H2Se) para posteriormente ser inseridos nas selenoproteínas. Para ser incoporado em SeMet e em proteínas, o Se não precisa sofrer essas transformações intermediárias (JUNIPER et al., 2006; SILVESTRE et al., 2007 apud CORTINHAS, 2009).
No rúmen, o Se consumido poderá ser incorporado à proteína microbiana pelos microrganismos ruminais, sendo desse modo absorvido como SeMet, ou deixar o rúmen e passar para o intestino na sua forma original (WEISS, 2005 apud CORTINHAS, 2009).Portanto a composição da dieta interfere na composição do Se que chega ao intestino (GIERUS, 2007).
Existem diferenças nas formas de absorção de fontes orgânicas e inorgânicas de Se. O transporte do selenito (SeO3) pelas bordas em escova intestinais ocorre por simples difusão, enquanto que o selenato (SeO4) precisa de cotransportadores (Na+ e OH–), cabe ressaltar que uma parte do selenato se transforma em selenito no rúmen. Sendo assim grande parte do selenato será absorvido por transporte passivo (WEISS, 2005 apud CORTINHAS, 2009).
Após a absorção intestinal, SeMet e SeCis podem ser metabolizadas pelos animais como aminoácidos (EKHOLM et al., 1991 apud GIERUS, 2007).
A excreção de excedentes de Se, por sua vez, ocorre pela transformação do elemento em formas metiladas menos tóxicas que selenito, selenato e selenoaminoácidos, como o trimetilselenônio ou selenoaçúcares (FRANCESCONI & PANNIER, 2004), os quais são eliminados do organismo por via urinária. Em casos de níveis muito elevados de ingestão de Se, a via respiratória passa a ser uma rota complementar de excreção do elemento na forma metilada. Adicionalmente, a ingestão excessiva das formas orgânicas de Se pode resultar num aumento da sua incorporação nas proteínas do organismo, podendo, inclusive, alterar a função destas. Casos de toxidez são mais raros que casos de deficiência de Se em animais domésticos (GIERUS, 2007).
3. Quantidade de Se para ruminantes
Há diferenças no requerimento dos animais, que foram mensurados em experimentos e cujas quantidades são necessárias para que o animal atinja o desempenho em condições reais, incluindo a margem de segurança para considerar a variação na ingestão de alimento, composição do mesmo e nível de produção que se busca.
Em 2001, o NRC (National Research Council) aumentou o nível recomendado de Se para vacas leiteiras para 0,3 mg/kg MS ingerida. Para bovinos de corte a exigência de selênio é de aproximandamente 0,1% da MS da dieta, segundo o NRC (1996).
Tabela 1. Recomendações da suplementação com selênio para bovinos
| Vacas Leiteiras | Bezerros (as)/Novilhos (as) | Gado de corte | |
| Crescimento ou Lactação | 5 a 8 semanas pós parto até 100 dias de lactação | Cria e recria | Engorda |
| Inclusão | 100-200 g/t(0,2-0,4 ppm de Se) | 100-200 g/t(0,2-0,4 ppm de Se) | 50-150 g/t(0,1-0,3 ppm de Se) |
| Benefícios conhecidos da levedura selenizada | Animal:Redução dos riscos de mastite e CCS no leite; |
Redução nos casos de retenção de placenta;
Melhor fertilidade.
Consumidor:
Aumento do Se do leite e capacidade antioxidante.Animal:Melhora na resposta imune;
Maior desenvolvimento muscular;
Risco reduzido de ocorrência de deficiência musculares (doença do musculo branco, miopatias).
Animal:Maior resistência ao estresse.
Consumidor:
Melhoria na capacidade oxidativa e qualidade organoléptica dos produtos cárneos (coloração e maciez);
Redução da perda por gotejamento
Fonte: Baulez e Dussert, 2011.
4. Selênio Orgânico
Cortinhas (2009), menciona que a suplementação com fontes orgânicas de Se pode ser feita através de:
– Selênio levedura (Saccharomyces cerevisae);
– Selenometionina;
– Selenocistina.
A fonte Se levedura é proveniente da fermentação de leveduras Saccharomyces cerevisae as quais é fornecido melaço de cana e sais de Se. Durante a fermentação o Se é incorporado as células da levedura formando alguns compostos dos quais SeMet é o mais prevalente, por este motivo existem diferenças na composição das fontes de Se leveduras comerciais (CORTINHAS, 2009). A SeCis é produzida em menor escala pela levedura, e apesar das diferenças na composição das fontes comerciais todas devem apresentar mais do que 2% de Se residual inorgânico (WEISS, 2005 apud CORTINHAS, 2009).
Segundo Baruselli (2005), citando trabalho realizado por Perhson (1989) com Se orgânico, demonstraram que essa fonte de Se aumenta a concentração desse mineral no leite em até 5 vezes quando comparado com o Se inorgânico, melhorando a qualidade do leite e prolongando o tempo utilização, uma vez que o selênio apresenta características antioxidantes, assim como a vitamina E.
Paiva (2007) citado por Souza (2008) comparou dietas sem a suplementação de selênio, dietas contendo 0,2, 0,8 e 1,4 mg de Se na forma de selenito de sódio com dietas contendo as mesmas quantidades de SeMet, fornecidas a 40 cordeiros da raça Suffolk, desmamados, castrados, com idade inicial de aproximadamente 90 dias e peso inicial de 19,8 . A autora concluiu que as fontes orgânicas de Se, nos níveis utilizados no experimento, promoveram respostas semelhantes ao selenito de sódio, quando observados os resultados da concetração de Se no soro, fígado e rim, as atividade da glutationa peroxidase no fígado e balanço metabólico de selênio. A inclusão de fontes orgânicas de Se promoveu maiores concentrações de Se no músculo dos animais, aumentando a concentração de Se na carne dos cordeiros (SOUZA, 2008).
Cerca de 20 revisões bibliográficas avaliaram o benefício do selênio, vitamina E ou ambos na diminuição da incidência de retenção de placenta. A suplementação de selênio e vitamina E foi positiva em 2/3 dos casos. Publicações científicas concluíram que a deficiência de selênio e/ou vitamina E tem impacto negativo na saúde reprodutiva e desempenho de vacas leiteiras. (BAULEZ & DUSSERT, 2011).
REFERÊNCIAS
BARUSSELI, M.S. Suplementos e co-produtos na nutrição de gado de corte. In: I Simboi – Simpósio sobre desafios e novas tecnologias na bovinocultura de corte. Anais… Brasília – DF, 2005.
BAULEZ, M.; DUSSERT, L. Selênio orgânico na nutrição de ruminantes: podemos esperar benefícios além da saúde animal? Disponível em: < HYPERLINK “http://pt.engormix.com/MA-pecuaria-corte/nutricao/artigos/nutricao-ruminantes-t424/141-p0.htm” http://pt.engormix.com/MA-pecuaria-corte/nutricao/artigos/nutricao-ruminantes-t424/141-p0.htm> acesso em agosto de 2011.
CORTINHAS, C.S. Fornecimento de zinco, cobre e selênio para vacas leiteiras e efeitos sobre a qualidade do leite e saúde da glândula mamária. Dissertação (Mestrado) Universidade Estadual de São Paulo. Faculade de Medicina Veterinária e Zootecnia. Departamento de nutrição e produção animal, 2009.
FRANCESCONI, K.A.; PANNIER, F. Selenium metabolites in urine: a critical overview of past work and current status. Clinical Chemistry, v.50, p.2240-2253, 2004.
GIRUS, M. Fontes orgânicas e inorgânicas de selênio na nutrição de vacas leiteiras: digestão, absorção, metabolismo e exigências. Ciência Rural, Santa Maria, v.37, n.4, p.1212-1220, jul-ago, 2007.
JUNIPER. T.D.; PHIPPS, R.H.; JONES, A.K.; BERTIN, G. Selenium supplementation of lactanting dairy cows: effects on selenium concentrarion in blood, milk, urine, and faces. Journal of Animal Science, v.72, p.2728-2734, 1994.
NRC, NATIONAL RESEARCH COUNCIL. Nutrient requerement of dairy cattles. 7. ed. Washington D.C.: National Academy Press, 2001. 381p.
NRC, NATIONAL RESEARCH COUNCIL. Nutrient requirements of beef cattle. Minerals, 7. ed. rev. Washington: National Academic Press, 1996. p. 54-69.
SOUZA, A.A.A. Característica fisico-quimica e sensoriais da carne de bovinos Nelore (Bos taurus indicus) alimentados com diferentes fontes de lipídeos e de selênio. Dissertação (Mestrado) Univrsidade Estadual de São Paulo. Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia. Departamento de Nutrição e Produção animal. Pirassununga, 2008.
Graduanda em Zootecnia – Universidade Estadual de Londrina