Atualmente o Brasil é o quarto produtor mundial de leite e o aumento da produção deve-se à ampliação do rebanho quando, na verdade, o que deveria ser trabalhado é o aumento do volume de leite produzido e sua qualidade.
As boas práticas, durante a ordenha, são pontos importantes que merecem destaque para a obtenção de um produto final com mais qualidade, mantendo suas características físicas e químicas.
A adoção de boas práticas é fundamental, pois o leite é um excelente meio para o desenvolvimento de microrganismos, portanto a má conduta higiênico-sanitária realizada na propriedade pode prejudicar a qualidade do produto. Os fatores que podem interferir na qualidade do leite são: carga microbiana, sanidade animal e a composição do leite.
As boas práticas na ordenha necessitam obrigatoriamente de algumas ações que devem ser feitas harmonicamente, durante todo o processo: 1) A higienização do ordenhador e sua relação com o animal. A vaca leiteira é um animal acostumado à rotina, por isso qualquer alteração pode acarretar em problemas na produtividade, portanto, devem ser respeitadas as limitações do animal buscando medidas de bem estar; 2) Em confinamento, deve ser feita a limpeza das baias e cochos, retirando as sobras de alimento; verificar o sistema de ventilação e a disponibilização de água ao animal; estes procedimentos devem ser realizados durante e após a ordenha; 3) Sanidade na ordenha (uso correto de soluções pré e pós-deepping, limpando corretamente os equipamentos evitando, assim, as contaminações).
Dessa forma, para alcançar um produto de qualidade, torna-se imprescindível a conscientização dos produtores em melhorar as condições higiênico-sanitárias do sistema de produção. A rotina da ordenha tem início com a transferência dos animais para a sala de ordenha. É importante definir os horários específicos para a ordenha, o trato e o descanso. Além disso, a mudança do ordenhador pode também ocasionar estresse no animal, comprometendo a produtividade.
A condução do animal até o local da ordenha deve ser tranquila, devagar, sem gritos, e sem o uso de instrumentos de agressão, evitando o estresse animal, acarretando o acúmulo do leite residual (leite retido no úbere após a ordenha ocasionando a mastite). A mastite é uma infecção mamária causada por bactérias e que traz grandes prejuízos ao agricultor, com o descarte de leite e o tratamento com antibiótico. Também deve ser considerada a higienização do ordenhador: unhas limpas, cortadas e com luvas, touca para evitar a queda de cabelo no local, as mãos e os braços devem ser lavados antes do início do procedimento. Esses cuidados são importantes tanto na ordenha mecânica como na manual.
Para melhor entendimento sobre como ocorre à saída do leite e a importância do tempo de realização da ordenha, é necessário compreender todo o procedimento do organismo do animal que envolve a resposta do sistema nervoso até a saída do leite.
Dessa forma, o animal deve receber um estímulo ativando os nervos que são interpretados pelo cérebro (hipotálamo) para sinalizar à vaca que a ordenha está iniciando. Esse estímulo pode ser realizado por meio de um barulho realizado pela ordenhadeira, a visão do bezerro pela vaca (principalmente da raça Zebu) ou o toque físico do bezerro ou do ordenhador nos tetos. Após o estímulo, ocorrerá a liberação e ação do hormônio (oxitocina) na corrente sanguínea, liberando o leite produzido na glândula mamária para a remoção através da ordenha. Este procedimento ocorre entre 7 a 8 minutos, portanto é essencial colocar as teteiras até um minuto após o preparo do úbere para a retirada total do leite.
Figura 01: Reflexo de ejeção do leite após o animal receber um estímulo. Fonte: University of Wisconsin-Madison.
É aconselhável realizar o alinhamento dos animais que serão ordenhados baseando-se no diagnóstico da mastite, realizando o procedimento na seguinte sequência: devem ser ordenhadas, primeiramente, as vacas primíparas (de primeira cria e sem mastite), vacas pluríparas (que nunca tiveram mastite), vacas que tiveram mastite, mas que foram curadas, vacas com mastite subclínica e vacas com mastite clínica. Esta ordem é aplicada para evitar a transmissão de mastite para vacas sadias.
Antes de iniciar a ordenha, é feito um toque na perna ou úbere, evitando a incidência de coices e isso facilitará o reconhecimento do ordenhador pelo animal (Figura 2A). Após esta etapa, se os tetos estiverem muito sujos deve ser realizada a limpeza com água corrente evitando molhar a região do úbere ou somente realizar uma limpeza com as mãos retirando a sujeira (acúmulo de área da cama quando em confinamento).
Figura 02: Contato do ordenhador através do toque no úbere (A) e lavagem dos tetos sujos com água corrente (B). Fonte: Funep.
Para diagnosticar a presença ou não de mastite, retiram-se os três primeiros jatos de leite de cada teto, utilizando uma caneca de fundo telado para diagnosticar mastite clínica. Os primeiros três jatos contêm mais contaminantes, portanto é possível observar grumos, sangue ou coágulos. Este teste deve ser realizado em todos os animais para estimular a saída do leite e diagnosticar a presença ou não de mastite. A presença de mastite é observada (Figura 03), com a presença de grumos na saída do leite.
Figura 03: Retirada dos três primeiros jatos de leite do quarto direito posterior (A) e o aparecimento de grumos detectando a presença de mastite na vaca (B). Fonte: Funep.
Após o diagnóstico de mastite nos quartos do úbere, aplica-se a solução pré-dipping (utilizada para desinfetar os tetos) meia hora antes da ordenha. É aconselhável a utilização de caneca sem retorno no uso da solução, impedindo qualquer contaminação e, após agir por 30 segundos, realiza-se a secagem com papel toalha evitando a mistura entre a solução e o leite, o descarte é feito em seguida em um saco de lixo. Após o uso a solução deve ser descartada, pois o pré-dipping contém cloro em sua composição, que é volátil, perdendo com o tempo suas propriedades químicas e reduzindo a concentração ideal para o uso nos tetos.
Figura 04: Aplicação do pré-dipping nos tetos (A) e a secagem com papel toalha após 30 segundos (B). Fonte: Funep.
Após o preparo pra a ordenha, posicionam-se corretamente as teteiras evitando a entrada de ar e a contaminação. A retirada da teteira deve ser feita somente após o esgotamento total do leite do úbere e o corte do vácuo da ordenhadeira mecânica. Estes cuidados estão relacionados à preservação do órgão e ao aproveitamento total da gordura do leite, que começa diluída e vai engrossando, progressivamente, até o final.
O leite de animais com mastite deve ser descartado devido à qualidade inferior e a presença de antibióticos (utilizados no tratamento da doença). Deve-se sempre ter uma teteira reserva para utilização em animais com mastite, evitando a contaminação dos animais sadios.
A ordenha deve seguir uma rotina para que o animal não fique esperando por muito tempo. Independente do tipo de ordenha realizada deve-se sempre prezar pela higiene. Na ordenha mecanizada deve-se observar o funcionamento do maquinário e sempre trocar as teteiras quando apresentarem ressecamento ou rachadura.
Na finalização, deve-se aplicar nos tetos o pós-dipping, solução que tem como função prevenir os tetos contra microrganismos causadores de mastite. Esta solução é constituída de iodo em composto emoliente, como a glicerina, evitando a irritação e a melhora na adesão do iodo na superfície.
Após a ordenha é importante manter os animais em pé, para o fechamento do esfíncter, orifício do teto que permanece aberto por um tempo. Após a ordenha é feita a limpeza do local. Os equipamentos, no caso de ordenha mecanizada, devem ser desinfetados seguindo as normas do fabricante.
Figura 05: Sala de ordenha depois de efetuada a limpeza. Fonte: Funep.
O leite ordenhado é encaminhado ao tanque de refrigeração para armazenar o leite mantendo suas características nutricionais sem perda de qualidade. O resfriamento do leite deve ser realizado, no máximo, em até três horas após a ordenha para diminuir a velocidade de multiplicação dos microrganismos presentes no leite. Quanto mais rápido for o resfriamento, melhor será a conservação do leite. Utilizam-se refrigeradores por expansão, para um rápido resfriamento, conservando o leite a uma temperatura de 4°C. O tanque de refrigeração deve ser localizado em ambiente com as seguintes características: 1) arejado; 2) de fácil acesso para o veículo coletor; 3) preferentemente isolado (sala); 4) possuir um ponto de água corrente para limpeza do tanque.
Figura 06: Taque de refrigeração de leite (A); abertura do tanque de resfriamento (B). Fonte: SENAR.
A limpeza e a sanitização dos tanques são os fatores muito importantes para a preservação da qualidade do leite e devem seguir algumas regras: enxaguar o tanque após a coleta do leite com água morna, entre 40 e 45°C; fechar o registro de saída do tanque, limpar com solução de detergente alcalino e enxaguar com água de boa qualidade para retirada do detergente e, posteriormente, realizar a limpeza com detergente ácido e proceder com o enxague novamente.
O manejo adequado dos animais traz um retorno lucrativo, com leite em maior quantidade e qualidade ao produtor. Boas práticas na ordenha devem ser seguidas de dietas adequadas, volumosos de qualidade e sanidade do meio.
Carla Mariane Marassatto
Graduanda em Engenharia Agronômica
Estagiária da Casa do Produtor Rural
Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” – ESALQ/USP
30 de Maio de 2014
Acompanhamento técnico: Fabiana Marchi de Abreu – Casa do Produtor Rural
Coordenação editorial: Marcela Matavelli – Casa do Produtor Rural
Link acessado em 08/06/2014: http://www.esalq.usp.br/cprural/boaspraticas.php?boa_id=100






